A vida (ou guerra, como queira denominá-la) começa cedo, quando estamos dentro do ventre e protegidos apenas pela força sutil e ágil das mulheres. São quarenta semanas mostrando o quanto esse poder da vida pode ser misterioso e fascinante, pra quem está por fora e quem faz parte do espetáculo. As mulheres são o alfa da vida.
Primeiro, a batalha da mulher, que sofre a dor do parto para dar a luz; nesse momento começa a batalha da vida do mais novo soldado. Viemos ao mundo desprovidos de armas, escudos e armaduras. A única proteção que conta nesse momento é o corpo delas.
Às vezes somos cuidados com esmero, muito amor e carinho. Noutras, a linha de frente não nos perdoa; falta mãe, família, alimento e principalmente compreensão. Quando os soldados dessa linha têm sorte, são resgatados por outras famílias que felizmente podem oferecer abrigo e proteção, já oferecendo a principal necessidade mesmo não tendo o mesmo sangue correndo pelas veias. Gostaria que esse milagre acontecesse para todos os soldados aos quais a vida é negada pela falta de sorte.
E assim, a guerra continua. Crescemos, aprendemos a batalhar caindo de árvores e esfolando os joelhos no asfalto, esconde-esconde nas casas abandonadas e terrenos baldios, atirando em pombas com estilingues e passando por interrogatórios severos com os pais quando chegamos imundos ao quartel.
Logo, não somos mais os soldados de papel do começo. Objetivos são outros e surge o senso de organização da tropa, que será formada pelos outros soldados da escola. Esta, nos prepara para o resto da vida, mas ninguém, nem os tutores, nos diz até quando a batalha perdurará. Mas temos nossos amigos, nossa tropa; sempre achamos que sobreviveremos e estaremos juntos até o fim. Porém, nessa época da vida, ainda não há como batalhar só; sabemos disso e insistimos em discordar das ordens dos pais, travando batalhas psicológicas e intermináveis para obter permissão de saída na sexta à noite, com retorno no "horário que eu quiser".
Pouco antes da verdadeira batalha, todos nós nos deparamos com novas estratégias: dessa vez - devido à tão esperada maioridade - não há mais a proteção dos pais. Alguns têm sorte e continuam o objetivo do estudo, tornando-se "generais"; outros, por vontade própria ou mesmo infortúnio, continuam como simples soldados. Para os bons, a diferença não importa, mas costumamos ver as outras tropas se desfazendo conforme o tempo passa. Mas com a nossa, não vai acontecer. Ou pelo menos não pensamos nisso como uma possibilidade, ainda que remota.
Dia após dia. Ano após ano e uma década (ou algumas) se passa. E vemos que a nossa tropa mudou. As pessoas são as mesmas, as piadas e bebedeiras também. Intensidade, frequência, contingente. O essencial mudou com certa nitidez. Custa muito aceitar os fatos logo de cara. Sim, começamos a perder nossos soldados na guerra da vida. Alguns não comparecem pois foram batalhar em outros campos, outros, mudaram de tropa. Alguns arrumaram o alfa de outra vida. E assim tentamos, às vezes frustrantemente, repor os desfalques. Talvez a expectativa alimentada pela nossa vontade de pedra de que tudo o que tínhamos antes nunca fosse se desfazer nos faça recusar as mudanças. Bombas que carregamos também explodem perto de nós. E parecem causar mais estrago que as dos outros.
Nesse momento, aprendemos que devemos aprender a sobreviver na selva capitalista lá fora sozinhos. Não há como depender dos membros do grupo, estes também possuem o livre arbítrio: são livres pra batalhar onde, quando e com quem quiserem. O problema é: como seguir em frente quando não há mais ninguém (além de nossos pais, que podem estar presentes em vida ou não mais) em quem confiamos para nos ajudar, acompanhar ou simplesmente compreender? Sim, é o início de outra vida (ou guerra, como queira denominá-la) mas sem cartas na manga.
Observar os outros sobrevivendo sozinhos pode ser um grande primeiro passo para a nossa própria sobrevivência. E sempre nos deparamos com nossos amigos, membros da tropa fazendo o mesmo. Creio que possa se traduzir em "amor de amigo" a vontade que temos de poder ajudá-los naquelas situações nas quais quem está de fora enxerga melhor. Porque vemos que muitos "somem" da vida cedo, aventurando-se em necessidades fisiológicas e emocionais que às vezes são difíceis de compreender. Abandonam a família, amigos, sonhos, estudos de uma hora pra outra pra se dedicarem ao "amor". Só quem faz isso deveria entender o por quê da situação; quem fica de fora, acha que sabe que poderia ser melhor de outra forma. Reclusão. Tempo é curto e precioso demais.
De modo algum essa dedicação ao par é errada. Mas com pouca idade, pouca gente sabe guerrear. Dedicam-se exclusivamente ao próximo, mas esquecem que têm que aprender a sobreviver sozinhas. É isso o que acho a mais fascinante das capacidades do ser humano: viver em função do próximo, esquecendo de si mesmos.
O tempo passa, não perdoa ninguém. Nascemos, crescemos, atingimos o topo do desenvolvimento e corremos em direção à velhice. Quando somos novos, podemos tudo, temos saúde e disposição de sobra. E é bem nessa hora que vemos nossos parceiros caindo em certas ciladas, - que custarão caro para eles posteriormente - das quais prefiro não protegê-los pois cedo ou tarde eles aprenderão algo com as mesmas. Após certa idade, tudo fica mais cansativo e custoso. E quando acontece de alguém "abandonar" ou "ser abandonado" na guerra, essas pessoas começam a correr atrás do prejuízo. Querem fazer tudo como se tivessem ainda dezoito anos. Quão grande é a frustração de saber que não se aguenta mais beber até o sol raiar, jogar futebol e videogame como antigamente. E o pior: os amigos que foram "abandonados" pelo mais novo abandonado também não estão mais disponíveis como nos bons tempos. Deve ser uma sensação de perda muito grande e o mais caro, sem dúvida, foi o tempo, que lhe tomou a jovialidade, vitalidade e lhe pôs inegáveis rugas no rosto.
Mesmo assim, os bons amigos perdoam. Nunca é tarde pra retornar ao batalhão, nem para o resto de tempo que sobra para todos na guerra. Portanto devemos sim, aprender a sobre(viver): caindo, levantando, chorando, gritando, levando socos no estômago, decepcionando pessoas e se decepcionando com outras, amando (ou achando que estamos), sofrendo, acertando e errando. Nunca sabemos se algo vai de fato dar certo ou não se não houver a coragem pra tentar o primeiro passo. Claramente, alcançar o sucesso depende do primeiro passo, e isso vale para qualquer que seja a situação. Bem na foto ou não, com ou sem filhos (os novos soldados), há algo inexplicável para essa aceitação da amizade. Há como encontrar felicidade na guerra, basta viver. Essa eufórica batalha da vida não acaba até chegarmos ao fim dela.
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