Quanto a pessoas, vejo meu passado trafegar diante dos meus olhos o tempo todo mas nada posso fazer a respeito. É justo dizer que não tenho tanta idade assim, a mais do que daqueles ao meu redor, porém, é com certa agonia e sensação de incapacidade de fazer algo a respeito que os vejo repetirem certos desastres que eu mesmo cometi quando tinha dada idade. Era impaciente, tinha uma grande auto-cobrança, perfeccionismo rolava solto, sonhava alto, desejava apenas as meninas mais lindas. Oras, eu tinha acabado de me tornar adulto, logo, eu tinha poder para ter tudo e ser o melhor. Começou aí a gama de erros... Mas é claro, porque supostamente eu não precisaria mais entender o que a experiência dos mais velhos tinha para oferecer. Eu sabia de tudo, não precisava aprender mais nada.
E, ao me tornar num grande adulto, me vi também sendo sugado pela realidade: tinha de pagar minhas próprias contas, e para isso, despejava mais da metade do meu dia no trabalho. Mamãe e papai pagando faculdade? Nem pensar. Por um momento, pensei que estas coisas fossem um obstáculo para a realização de sonhos, mas o obstáculo, na verdade, era o próprio sonho; muito perfeito, fora da realidade. Não que fosse impossível de realizar, mas haviam coisas que deveriam ser feitas que às vezes estavam fora do meu alcance para que o sonho tomasse vida. Até aqui, eu sentia que a vida era pesada demais, cruel demais; ela me dava a todo momento motivo para desistir e vontade de fugir. Assim sendo, minhas expectativas surreais foram se tornando a fonte das minhas desilusões e sofrimentos, pois criei uma visão de futuro que não era alcançável. Também colocava a culpa na realidade, naquela que sugava metade do meu tempo disponível para me pagar um dinheiro que seria usado para apenas repetir o processo da vida cotidiana. A realidade era cruel. Sim, verbo no passado, pois ela deixa de ser quando eu a encaro com seriedade e coragem. Mas apenas aprendi a lidar com a realidade quando me dei conta de que deveria aprender a viver. Deixei de lado o perfeccionismo, os sonhos inalcançáveis, dei atenção para as garotas "pé no chão". Após isso, a vida me foi tão mais aveludada, mais viva, porque tudo ficava mais harmonioso, mais real. Aprendi que se a realidade é aonde vivemos, é perda de tempo fugir dela. Dizem que tempo é dinheiro, mas eu diria que, neste contexto, tempo é sucesso em realizações, pois o tempo bem administrado garante a construção de alicerces firmes para sonhos reais.
Esta é uma experiência real que vivi e que gostaria de passar adiante, mas há hoje um outro aprendizado que será muito proveitoso para mim: não importa o quanto eu queira ajudar os mais novos, não tenho poder para fazê-los digerir o conhecimento que tenho para oferecer. E é por isso que às vezes me sinto incapaz de fazer algo a respeito de ensiná-los a não cometer os mesmos erros que cometi. Na verdade, até poderia agir, mas estaria sendo hipócrita, pois, se existe algo conhecido como liberdade, eles têm todo o direito de errar. Minha liberdade acaba quando começa a do próximo. E o que eu teria para aprender com isso? O respeito ao próximo. Por este ponto de vista, deixar os amigos se ferrarem mesmo podendo evitar que isso aconteça pode ser interpretado como falta de respeito, mas é justamente o contrário: por mais que as experiências dos outros possam nos ensinar algo de útil, nada neste mundo substitui uma cicatriz no nosso próprio corpo. E se é assim que tenho que conviver com os mais jovens, que assim seja a realidade.
Minha reflexão sobre objetivos de vida, após tudo isso, centrou-se em torno de comparações entre elementos do meu passado (que por acaso seriam semelhantes aos dos jovens do meu redor) e os de hoje. Como dito antes, meus objetivos eram irreais, fora da realidade. Eu achava que poderia tudo, que teria tudo, que seria o melhor. Pensava em ser médico, porque achava que com isso seria o melhor; descobri que não tinha estômago para fraturas expostas. Depois, quis ser engenheiro, achando a mesma coisa, mas foi frustrante saber que era uma negação em matemática e física. Sonhos, sonhos... Altos demais para mim. Antes destes acontecimentos, a mudança de país na minha infância (pré-adolescência) também foi um golpe brusco da realidade. Nem que eu quisesse muito me tornar médico ou engenheiro eu conseguiria sem ter patrocínio, pois não há faculdades públicas naquele país. Apesar de tudo, foi naquele mesmo país que comecei a dar ouvidos à realidade e, consequentemente, criei um objetivo complexo, mas bem alcançável, se comparado aos outros anteriores. Na adolescência, tratei de aprender a língua japonesa e acabei aprendendo a inglesa de bônus. Administrei meu tempo no trabalho para realizar um dos sonhos que era fazer um mochilão pela Europa. Ali, senti que queria mais, que deveria aprender outras línguas, mas acima de tudo, entendi que eu deveria ser um cidadão do mundo. Diplomacia, essa é a palavra. Por que não trabalhar em algo que me daria a oportunidade de viajar o mundo todo? Pode não ser o melhor emprego do mundo, mas eu não preciso mais ser o melhor... Apenas preciso saber o que fazer para chegar lá, e disso agora eu sei. É um objetivo muito diferente dos antigos, e é por isso que foi saudável refletir. Rever conceitos, reavaliar objetivos, retomar o foco. Coisas possíveis apenas quando se leva a vida a sério. e por sério eu quero dizer viver a vida em sua plena realidade, crueza e frieza.
Encarar a vida de peito aberto, eis o segredo da simplicidade. Sonhos grandes são legais, interessantes, mas são complexos e o sofrimento que a decepção sofrida quando não podem ser realizados é proporcional à esta complexidade. Infelizmente, seres humanos tendem a seguir o caminho mais curto, tendem à fuga, mas nem sempre o caminho mais curto é garantia de sucesso e nem sempre a fuga é garantia de mudança (pelo menos não pra melhor). Levar coisas a sério é difícil, às vezes, assim como a infância que, para todos, um dia acaba e esse dia é muito penoso, mas a seriedade que vem junto com as responsabilidades da vida adulta nos traz coisas muito positivas, como o poder de realizar coisas que não eram possíveis na infância. É claro que há diferenças individuais quanto ao processo de transição de etapas; é aí que vejo pessoas fugindo da realidade, pois têm medo de crescer. Também evito de tentar fazer algo a respeito destes indivíduos porque talvez precisem passar por isso. É algo que faz parte da realidade, por isso, aceito tal coisa como é, sem querer mudá-la. Esta é a minha seriedade, que eu gostaria que todos pudessem também aprender a ter e é ela que vai continuar a me guiar nos trilhos da vida.

Desculpa por fuçar aqui... mas apesar de ser um texto antigo me identifiquei muito com algumas coisas que estou vivenciando agora. Obrigada por mais esta reflexão.
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